No artigo anterior, dediquei-me a apenas citar 20 situações de erros do governo Lula e que esses erros são apenas uma evidência de que vivemos num país sem nenhuma visão estratégica de futuro. Tudo é na base do improviso. No entanto, o presidente continua a repetir sua já famosa frase: “Nunca na história deste país”, como se tudo parecesse maravilhas.

Seria demais pedir para: a) dar um basta na gastança do governo; b) reduzir os juros (Selic) e assim economizar para investir; c) fazer as reformas administrativa, tributária e previdenciária; d) aumentar a produtividade do setor público, como se exige do setor privado; e) melhorar a qualidade dos serviços públicos; f) respeitar o cidadão e assim por diante?

Que tal, um governo que:

1. pela dimensão e importância do Brasil agisse estrategicamente com os demais países da América do Sul, construindo juntos ferrovias que ligassem o Atlântico ao Pacífico, principalmente porque os asiáticos (em particular a China) estão se tornando grandes compradores mundiais. Todos os países sul-americanos seriam beneficiados. Isto sim seria uma via eficaz de integração internacional, e não essas reuniões ineficazes que vemos quase mensalmente?

2. por ser o Brasil continental, investisse em ferrovias com bitolas largas (que garantem alta velocidade), em três níveis: uma pelo litoral, outra pelo meio (sentido Norte-Sul) e uma terceira pelos estados do Oeste, que interligadas às ferrovias do Atlântico-Pacífico iriam nos dar maior competitividade no comércio exterior?

3. baixasse a Selic, dos atuais 13,75% para algo como 6,75%, sem nenhum risco de inflação, pois o mundo inteiro tem juros baixos e a inflação é controlada? Mesmo com a queda de 7 pontos percentuais, ainda teríamos juros reais 40% acima da inflação (uma das maiores do mundo) e a economia seria em torno de R$ 80 bilhões por ano, que, se investidos em infraestrutura, saúde, educação, saneamento e segurança provocariam uma verdadeira revolução no Brasil em poucos anos. Afinal, de que adianta um país que economiza R$ 100 bilhões (superávit primário) mas torra tudo nos R$ 170 bilhões que paga em juros por ano? Não precisa ser gênio para concluir que o erro está na política errada de juros altos, os maiores do mundo. Ou é o mundo que está errado?

4. apostasse para valer em educação básica pública, a exemplo do que o Japão fez há mais de 100 anos, de tal modo que pobres e ricos estudariam em escolas públicas de excelência e de qualidade? Costumo dizer que o Brasil somente será um país decente no dia em que não houver escolas privadas na educação básica. Infelizmente, porque a pública é sofrível, precisamos ainda das escolas privadas, mas o correto seria que apenas existissem as escolas públicas, desde que de qualidade, onde o professor fosse valorizado e tivesse orgulho desta vital profissão.

5. para enfrentar a atual crise financeira mundial promovesse investimentos públicos maciços, fazendo um verdadeiro canteiro de obras e, assim, nos preparando para voltar a crescer em dois ou três anos. É bom lembrar que a infraestrutura precária que temos só resistiu porque o Brasil foi a país que menos cresceu no grupo do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) e o penúltimo na América Latina, ou seja, um país que patina e cresce muito pouco. Não há como o Brasil crescer a taxas de 8% (que é o seu potencial) com a infraestrutura de que dispõe atualmente. Daí a oportunidade que o atual governo está perdendo ao investir o mísero 0,5% do PIB como vem fazendo. Assim, seremos sempre um país de segunda linha e jamais desenvolvido.

A primeira grande mudança está na queda brusca da taxa de juros (Selic), economizar bilhões de reais e investir maciçamente. O que precisamos é de investimentos, não de gastança. Recursos existem, mas são muito mal empregados. Afinal, o governo arrecada mais de R$ 1 trilhão por ano. Precisamos de um choque de gestão pública. Sem isso, seremos sempre um potencialmente rico, mas pobre país.

Com estes dois artigos, espero ser mais um a fazer o alerta para, quem sabe um dia, termos um governo verdadeiramente com visão estratégica no Brasil e na América Latina. Nossa esperança, pelo jeito, é só a partir de 2011.

(*) Judas Tadeu Grassi Mendes é Ph.D. em Economia, pós-doutor e diretor-presidente da Estação Business School.

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