É recorrente hoje abrirmos os jornais ou ligarmos a TV e nos depararmos com as seguintes manchetes:

“Mercado financeiro: países da zona do euro entram em recessão” (Jornal Nacional 13/02/09)

“Montadora corta 10 mil empregos e reduz salários no mundo” (Folha de São Paulo, 10/02/2009)

“Crise mundial assusta trabalhadores brasileiros.” (G1- Economia e Negócios, 01/02/09)

Em cenários de crise, o gerenciamento de pessoas, que já é por si só um desafio complexo, exige ainda mais atenção. Em um ambiente repleto de adversidades, essa função ganha ainda mais importância, tornando-se essencial para adequar a empresa a situações adversas como ocorre com a atual conjuntura econômica. É possível comparar um gestor a um equilibrista de pratos e a crise como pratos extras que precisam ser equilibrados sem deixar os outros caírem.

REAÇÕES CRIATIVAS E PRAGMÁTICAS À CRISE

Eu não estou aqui hoje como executivo ou empresário, e sim como psicólogo. Não estou aqui para falar da estrutura da crise, de como surgiu, até quando permanecerá ou como a economia irá se recuperar. Estou aqui para falar de pessoas, seres humanos inseridos nas organizações sob forte influencia da crise. Seja uma influência real ou especulativa.
Esta influência afeta sua motivação, produtividade, qualidade de vida, dentre outros aspectos. São pessoas que já leram as manchetes como aquelas citadas anteriormente ou ouviram rumores e que começam a temer o que pode vir a acontecer, o fantasma da crise. O fato é que a crise é real para alguns, especulativa para outros, mas afeta negativamente ambos. Mas por que negativamente? Não poderia afetar positivamente? Eu respondo... Quem sabe? É o que poderemos descobrir adiante.
Muitas soluções tidas como “criativas”, mas pouco efetivas surgiram para combater a crise na economia e a recessão. O primeiro ministro Britânico quis dar dinheiro aos bancos comprando participações. O Fed, por sua vez, preferiu absorver títulos podres e conceder empréstimos a juros baixos e prazos de devolução gigantescos, dando também créditos com dinheiro do contribuinte não só a bancos, mas às empresas de vários setores. Ou seja, a socialização das perdas. Bem, vivemos o ônus e o bônus da globalização.
Mas poucas inovações surgiram para combater o que estas informações e uma nova realidade produzem nas pessoas inseridas neste contexto.

Imagine que um dia você acorde, levante, e antes de tomar seu café você ligue o rádio e a noticia é de que há um tornado a caminho, e que chegará em algumas semanas. Ou pior, em algumas horas. Você vai à janela e nada de tornado, mas seu vizinho na outra face de seu prédio faz o mesmo ritual, mas ao olhar na janela se depara com um tornado de proporções homéricas, assustador, um tom de cinza bem escuro e vindo em sua direção. Atrevo-me a dizer que apesar do vizinho que viu o tornado estar muito mais desesperado, ambos poderão tomar atitudes semelhantes e ambos foram terrivelmente afetados com a informação.
O que fazer? Descer para o porão? Fugir? Achar um canto para rezar? Comprar comida para estocar? Fazer uma passagem secreta? Qualquer que seja a reação a partir da informação do tornado, estará baseada em uma palavra: ESPERANÇA. É no que nos apegamos e no que a maioria dos profissionais que gerenciamos também.

Quero dizer que tanto uma reação pragmática quanto uma reação criativa podem gerar resultados satisfatórios neste momento, e isso se dará de acordo com a cultura organizacional e a liderança. Entendo que há certa dificuldade em reagir de forma mais agressiva e arrojada dentro de uma cultura mais conservadora. Mas o importante é que haja uma reação e que essa seja positiva.

Cada cultura organizacional reage diferentemente à crise, pois a mesma também exerce influencias diferentes para cara empresa e seu mercado. Umas mais ousadas, outras mais conservadoras, mas todas com necessidades, urgentes ou não, de reação.
Claro que vejo empresas com tendência de cortar investimentos em capital humano, mas não creio que boas e positivas soluções saiam do escopo deste investimento. Muitas empresas partem para o downsizing, outras cortam custos, investimentos, propõem férias coletivas e redução de jornadas. Uma reação mais pragmática e emergencial. Já outras reagem de uma forma mais criativa. Partem para outras estratégias inovadoras de reação. Deixo aqui bem claro que isso não é uma solução proposta e mensurada e sim uma opção positiva de reação à tempos difíceis.

Posso citar alguns cases de empresas que mantiveram uma postura positiva de reação e planejada de forma sustentável:

No final de 2008 a empresa aérea Azul decolou na crise, contratou e treino mais de 800 funcionários para tentar incomodar o bipólio aéreo de TAM e GOL.

Amanco, fabricante de tubos e conexões, deve investir este ano mais de 50 milhões no Brasil por considerar o país estratégico para os acionistas.

A construtora Odebrecht, no exterior principalmente para manter os talentos, propôs uma realocação de profissionais para outros projetos já em andamento e tentando assim não perder bons profissionais.

Em entrevista o presidente da Tetra Pak, fabricante de embalagens, garantiu que a empresa não foi afetada pela crise.

E a montadora Renault do Brasil, após um período turbulento, divulgou que aumentará sua produção para o ano de 2009.

Acompanho um executivo de uma empresa do segmento metalúrgico em São Paulo. A empresa que dirige passa por um turbilhão com a recessão de países do exterior para qual vendiam toneladas de aço e metal. Suas vendas e exportações caíram vertiginosamente pela crise e pelo protecionismo dos países que compravam. Por se tratar de uma empresa familiar, este executivo propôs reações positivas para o conselho, que acatou sem maiores ressalvas. A empresa decidiu expandir. Crescer de modo sustentável para outras regiões e mudar o foco. Pesquisaram, estudaram o mercado e o histórico da própria empresa e decidiram que venderiam também no varejo e não só no atacado como anteriormente. Viram que o mercado suportaria isso, mas precisariam atacar outras bases e decidiram abrir escritórios comerciais em outras regiões atendendo atacado e varejo. Vendiam apenas toneladas hoje vendem também poucos quilos, pois o mercado interno passou a ter bom retorno. Em contrapartida este executivo desceu ao chão de fábrica e chamou um a um de seus funcionários para conversar. Compreendeu que todas as pessoas da fábrica estavam extremamente assustadas, temerosas, tensas, pois tinham prestações para pagar, estavam terminando a casa ou comprando um carro. Não sabiam o que seria do futuro, foi quando este executivo deixou clara a posição dele e da empresa de expandir como reação positiva a crise, e que manteria por enquanto seus postos de trabalho.

Stephen Covey disse certa vez que para manter o engajamento da equipe em tempos de difíceis é importante que sejamos transparentes para que as pessoas saibam exatamente o que você esta fazendo e por quê. Gerencie as expectativas e se mantenha fiel ao que você planejou e comunicou. É esse comportamento que constrói confiança e que leva os funcionários a se manterem comprometidos com a empresa.
É importante inserir o funcionário dentro da missão e da visão da empresa, fazendo-o ter a noção de quão importante é seu trabalho para que elas sejam cumpridas e para que as metas sejam obtidas, gerando um sentimento de pertencimento.
Investimento em capital humano não como solução, mas como reação positiva. Cabe a você a escolha de viver ou sobreviver à crise.

O CAPITAL HUMANO

Já citei que o investimento em capital humano é uma reação positiva nestes momentos de dificuldade. Reter talentos é uma posição da grande maioria das empresas com visões otimistas para a crise. Sabem que necessitarão de profissionais estratégicos para a retomada econômica e de mercado. Vejo um aumento na procura por diretores financeiros no mercado, pois as empresas já buscam bons profissionais para gerir dívidas e riscos na crise.
Programas de desenvolvimento como coaching, counselling, job rotation e mentoring, além de programas específicos para cada mercado também podem ser de grande valia neste momento. Mostram, que mesmo com a crise, há um comprometimento da empresas com o desenvolvimento e com a carreira da pessoa nesta ou naquela empresa. Ouso a dizer que uma das formas de reter o profissional é prepará-lo para ir embora.

Programas de sucessão também são investimentos interessantes neste momento. Enquanto conselhos corporativos e CEO’s reconhecem os planos de sucessão como uma de suas principais responsabilidades, isto nem sempre tem a prioridade que elas merecem. Adotar um claro, compreensivo e objetivo plano de sucessão é mais do que uma marca de boa governança, isso é fator crítico para desempenho saudável e a sustentabilidade de qualquer organização, e demonstra confiança perante os acionistas no caso de empresas de capital aberto.
Antes de tomar qualquer decisão sobre sucessão de lideranças, o diretor de uma corporação, juntamente com seu conselho, deve articular uma clara estratégia para o futuro de seus negócios em meio à crise. É vital que os potenciais sucessores, independente se para CEO ou outro cargo sênior, estejam preparados para liderar os negócios como eles serão no futuro, não como ele são no presente. Uma visão estratégica e otimista.
Dentro de um programa de sucessão existem pontos do processo que podem ser utilizados para engajamento dos profissionais como trabalhar com diretores de RH para avaliar talentos internos quanto externos e articular planos de curto e longo prazos com esta pessoa inserida como parte importante do plano. Empreender também é pensar em sucessão desde o primeiro momento.

GERENCIANDO ESPECULAÇÕES

Já citei acima que tanto a crise como a especulação da crise afetam diretamente as pessoas nas empresas. Prefiro citá-las hoje como pessoas e não como profissionais, pois meu olhar esta para o ser humano. Vejo empresas na qual as pessoas lêem memorandos que falam sobre a crise, sobre cortes, redução de salário ou jornadas.
Já vi empresas oportunizando a especulação gerada pela crise se para reduzir custos, cortar postos de trabalho e elaborar planos de reestruturação, coisa que já deveriam ter feito há tempos. Claro que férias, redução de jornada e salários antes de demitir pode ser uma reação positiva para reter talentos em uma visão otimista do fim da crise.
Na crise, quem perde o emprego ou quem se sente ameaçado costuma investir em cursos que aumentam sua empregabilidade, tanto pela qualificação quanto pelo networking e nisso vemos o aumento da busca por MBA’s.

O EXECUTIVO E A CRISE

Li, certo dia, uma entrevista com Jack Welch (Guru e ex-CEO da GE) que me chamou atenção quando tocou em dois pontos bem coerentes. O primeiro era de que a premissa de que o executivo sofre de solidão é “mito” e que ele nunca teve tantos amigos como quando esteve no topo. O segundo era que não se devia confiar tanto nos gurus. Concordo com ambas as colocações.
Dependendo de como é construída essa relação com o guru e como o mesmo é idealizado, o profissional acaba se transformando em um robô, ou pior, tente a terceirizar seu sucesso a tal pessoa deixando de realmente experiênciar sua carreira, com sucessos e quedas, vivendo intensamente sua vida profissional. Devemos enxergar em cada um pontos que possamos aprender. Por que um mentor em meio a um mundo repleto de pessoas brilhantes?
Sobre a pseudo solidão que Jack Welch cita e diz que os consultores e escritores criaram para venderem livros e serviços (Ele mesmo um escritor e consultor) também acredito no guru. Acho realmente que ele nunca esteve só. Só nos cabe avaliar a profundidade e a qualidade destes relacionamentos. Quando se esta no topo, todos vão à você. Mas do que é feito este relacionamento? É uma relação sólida, profunda, de real amizade, em que se pode dividir todos os medos, receios e angustias que as grandes decisões geram? Ou é feito de compartilhar os louros, mostrar as vitórias, os avanços, resultados e dividir amenidades? Acho um bom ponto para pensarmos. O mercado hoje só exalta dos fortes. Networking não é necessariamente amizade, mas é saudável que se transforme em uma. Vejo uma tentativa de pejorativizar o networking dizendo que devemos cultivar mais amizades e menos networking o que concordo, mas muitas de minhas amizades nasceram do meu networking.

O que pretendo mostrar é que executivos e gestores dividem provavelmente dos mesmos desafios. Como gerenciar uma equipe de pessoas que vivem, além da pressão habitual por resultados, uma tensão da especulação e da incerteza sobre o futuro. E pior, como ele lida com suas próprias incertezas do futuro.
A incerteza, tensão e pressão geram angustia e stress. O estado de stress é um grande agravante também da baixa qualidade de vida. Uma pessoa muito estressada e tensa durante todo o dia libera um hormônio chamado cortisol. Este hormônio sempre foi útil evolutivamente para o ser humano quando necessitávamos de reações rápidas contra predadores, mas liberado por muito tempo em nosso organismo atua baixando a imunidade. É como um veneno que nós mesmos produzimos. Esta baixa imunidade pode acarretar desde um resfriado até o desenvolvimento de algo mais grave.

IDENTIDADE EXECUTIVA

Pesquisas mundiais mostram que um dos maiores medos do ser humano é perder o emprego, pois o emprego faz parte de sua identidade e responde a uma pergunta social muito importante: Quem é você?

Hoje, quando perguntados quem somos nós, quantos respondemos: “Sou fulano, filho de cicrano da família tal”? Acho que ninguém. A resposta socialmente esperada é o que você faz ou onde trabalha ou se desenvolve acadêmica ou profissionalmente. Quando não temos essa resposta nos sentimos culpados ou inferiores. Precisamos responder com algo, mesmo que seja como consultor desenvolvendo alguns projetos. Com a crise esta identidade corre um risco eminente.

Conheci certa vez um profissional experiente, em cargo de direção em uma grande empresa. Passou 12 anos de sua vida dentro da organização, todos o procuravam, o queriam como cliente. Ele sempre respondia quando questionado: “Sou o João da empresa X”. Parecia que de tanto repetir esta identificação ela se tornou real e cristalizada em sua personalidade.
Um dia, a empresa em que o João trabalhava partiu para uma estratégia chamada downsizing, ou seja, enxugando estrutura e capital humano. De uma hora para outra, João não tinha mais emprego. E pior, com o emprego foi sua identidade. Ele era o João da empresa X, e agora? Quem era o João? João não sabia mais, não tinha mais cartões e não poderia se identificar para outrem da maneira que sempre o fez. Este é um típico exemplo de como momentos de crise trazem a tona o medo da falta de renda e o medo da falta de resposta ao social sobre sua identidade. A crise pode vir a ser um momento também de reflexão sobre sua identidade e trazer reflexos positivos nas pessoas.

A história também mostra por que produtos revolucionários podem surgir nos períodos mais recessivos da economia e o marketing ressurge assim como grande arma para a competição. Assim como previu Einstein, podemos também olhar a crise por um aspecto positivo.

A CRISE SEGUNDO "EINSTEIN"

"Não pretendemos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor benção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar "superado".

“Quem atribui à crise seus fracassos e penúrias, violenta seu próprio talento e respeita mais aos problemas do que às soluções. A verdadeira crise é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la."

Ah! E não assistam televisão.

Albert Einstein

*Willian Mac-Cormick é sócio da Consultoria em capital humano Mac-Cormick & Sommer.

Blog "Executivos no Divã "

No ar "Executivos no divã", um novo blog fomentador da filosofia e psicanálise nas organizações e lideranças.

Mídias Sociais