“Ética, um princípio que não pode ter fim?”

 

Vejo diariamente discussões sobre ética, moral e bons costumes. Utopia... Acredito que toda a postura radical e inflexível que tomamos significa que é esta mesma postura que precisamos nos convencer. Um professor só ensina e defende ferrenhamente aquilo que ele mesmo precisa dar-se conta. Está na hora de evitar o dogmatismo que transforma a Ética em um código de normas. A verdadeira Ética se faz, não se discute. E qual é a verdadeira Ética?

Para me auxiliar nesta explanação, me embaso em um autor estudioso da Ética na qual compactuo com suas idéias. O filósofo e professor Adolfo Sanchéz Vazquez que definia a Ética como a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é ciência de uma forma específica de comportamento humano, o comportamento moral. A ética é atualidade, e fala-se em ética nos jornais, fala-se em ética na televisão e fala-se em ética nos colégios profissionais, ou nas entidades, ou corporações profissionais. Quando nós usamos o termo ética, com alguma freqüência, usamos o termo de uma forma errada. E, quando eu ouço isto, me sinto mal.

Por exemplo, existem muitas pessoas que usam a seguinte expressão: - O fulano teve uma conduta antiética. Ou falam na "atitude ética do fulano". Isso sob o ponto de vista filosófico está errado. Por quê?
A ética ocupa-se do estado da conduta das pessoas, na medida em que essa conduta é boa ou má. A ética não se ocupa apenas da conduta boa. Não podemos identificar ética com "bom".

A ética é o estudo da conduta humana na medida em que ela é correta ou incorreta. Porém, todos nós entendemos uma pessoa quando ela diz "a conduta antiética do fulano". Nós sabemos o que ela quer dizer. Mas por que essa pessoa está dizendo isso? Está afirmando isso porque a imagem, o conceito que essa pessoa tem da ética, é um conceito de ética muito limitado. É a ética dos Códigos de Ética ou, também chamados, Códigos Deontológicos.
E o que acontece? Os Códigos Deontológicos têm, no seu início, um interesse profissional. Os Códigos Deontológicos têm um caráter disciplinar, têm um caráter fiscalizador, têm um caráter punitivo, e a ética vai muito além da Deontologia.
É! A ética não é deontologia. A deontologia é apenas uma partezinha da ética. Porque eu já disse e, a frase não é minha, a frase é de um grande autor, que nasceu no final do século passado, que trabalhou a vida toda lecionando ética na Universidade de Cambridge: George Edward Moore.
Moore morreu em 1958. E, o grande problema de Moore, Filósofo, especialista em ética, foi saber qual é o significado de "bom". Ele dizia: o bom certamente é o centro da ética, o conceito mais importante. E a ética ocupa-se, ou a ética é, ele afirma: "The general inquiry into what is good and bad". A pesquisa geral sobre o que é bom e o que é ruim; isso é ética.

Os Códigos Deontológicos apresentam-nos alguns interesses, alguns aspectos da conduta profissional. Como o Psicólogo não deve agir. Então, tem um caráter disciplinar. Repito, a Ética Filosófica é bem mais ampla do que isso tudo. Os Códigos Deontológicos em geral exprimem alguns interesses de classe. Os Códigos Deontológicos nasceram para quê? Para manter a boa imagem do profissional perante a sociedade, porque aquele profissional que não se comporta direito está prejudicando a todos os "profissionais da mesma especialidade”.
Certo? Então há uma grande diferença entre ética e deontologia. Os Códigos de Ética deveriam ser chamados de Códigos de Deontologia Profissional.

Conceitos: Ética vem do grego Ethos, ou seja, modo se ser ou caráter. Moral vem do latin mos ou mores, costume ou costumes, no sentido de conjunto de normas e regras adquiridas por hábito. Analisando, vemos que ambos não correspondem a uma disposição natural e sim ao que é adquirido e conquistado por hábito.
A Ética é o estudo da moral. A Ética é ciência e não dogma. Não se deve confundir aqui a teoria com seu objeto de estudo

A Ética é universal (ou deveria ser) não é só minha, da sociedade ou da organização. É de todos. Ela não julga, não faz juízo de valores. Os valores vêm da moral, e é isso que vemos políticos defendendo na TV. É isso que muitos precisam pregar para se convencer que é o que seguem. Nunca vi um político acusado e com substanciais provas contra si de corrupção que não defendesse a ferro e fogo seus “valores éticos”. A Ética não cria a moral, mesmo sendo que toda a moral propõe determinados princípios, normas ou regras de comportamento.

Não é a Ética que os estabelece em uma sociedade e sim analisa a experiência histórico-social no campo da moral, procurando determinar sua essência, origens e condições objetivas e subjetivas de seu ato (moral). E os problemas da moral necessitam de uma abordagem cientifica e aí entra a verdadeira Ética.

Moral é comportamento. Comportamento que se concretiza apenas quando as pessoas estão vivendo em sociedade, assim, a moral existe necessariamente para cumprir uma função social. As proposições dela devem ter o mesmo rigor, coerência e fundamentação das proposições científicas. Ao contrário da moral em que não possui esse caráter e muitas vezes seus princípios divergem e são incompatíveis com os conhecimentos estabelecidos pelas ciências naturais e sociais. Nos primórdios, a partir do momento em que um homem encontrou com outro e decidiram que juntos poderiam sobreviver mais em um ambiente hostil, se estabeleceu a moral. A moral tende a transforma-se em moralidade devido à exigência de realização que esta na essência do próprio normativo da moral. Já a moralidade é a moral em ação, prática e praticada. Tudo isso se dá pelo ato moral, ou seja, a consciência de um fim e decisão de realizá-lo. Suas escolhas e conseqüências possíveis. Isso é uma questão de etiqueta.

E o que não é a etiqueta, senão uma pequena ética...?

Perguntas e respostas:

1- Se a ética é científica, por que a moral não o é?
R: Não existe uma moral cientifica porque ela não é estabelecida por estudos e conhecimento e sim por regras e normas que definem comportamentos sociais. O que pode existir de científico é um conhecimento acerca da moral. A moral não é ciência e sim um objeto dela e por isso pode ser estudada e investigada.

2- A ética não Julga nada? Justifique?
R: Não, a ética não julga nada, quem julga é a moral. O objetivo da ética é estudar a moral, refletir sobre ela, entendê-la, dar conhecimento e questionar o contexto histórico-social do ato moral e o que é melhor para todos os envolvidos.

3- A ética não está vinculada a valores? Justifique?
R: Inicialmente não, apenas os estuda. Mas, se tratarmos a ética como teoria, investigação ou explicação de tipos de experiência humana e comportamentos que seria a Moral com suas normas e valores e isso se caracterizasse uma espécie de vinculo, sim, afirmamos que ela esta vinculada a valores.

4- Ouvi certa vez que “arrotar em um restaurante no Brasil não é ético”, por quê?
R: Arrotar em um restaurante no Brasil não é educado e fere o trato social local. É importante salientar que em outras culturas o comportamento educado e esperado é o de arrotar após a refeição.

5- Cite um exemplo de ato moral:
R: Temos vários. Ajudar alguém que, se poder defender-se, é impunemente agredido na rua; Cumprir a promessa de devolver um empréstimo; Denunciar uma injustiça cometida contra um amigo. É um ato sempre sujeito e passível de aprovação e desaprovação de acordo com as normas comumente aceitas. É importante avaliar o motivo, o que impulsiona aquele sujeito ao ato. O motivo que pode impulsionar, por exemplo, uma injustiça cometida contra um amigo pode ser uma paixão sincera pela justiça ou algo muito diferente como o desejo de publicidade. Um ato pode realizar-se por motivos diferentes e um motivo pode impulsionar a realizar atos diferentes com finalidades diferentes. O importante é o saber sobre o motivo do ato.

*Willian Mac-Cormick é sócio da Consultoria em capital humano Mac-Cormick & Sommer.

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